Crônicas de São Paulo – O medo

Fábio nascera um ano antes do terrível incidente em São Paulo. A família morava em um apartamento em Diadema, quase na divisa com São Paulo. A sorte deles foi tão grande que não podia ser descrita com outra palavra que não fosse predestinação. O prédio modesto não sucumbira junto com a grande metrópole por pouco.

A cerca de 500 metros de onde moravam, ainda havia trincas na superfície e o muro construído para envolver a cidade-fantasma e impedir que nada entrasse ou saísse fora erguido exatamente a dois quarteirões dali. Deus os havia poupado, concedera uma nova chance. Anita e Rafael, os pais de Fábio, oriundos de famílias religiosas, acabaram afastando-se dos cultos e viviam juntos mesmo sem uma união oficial, para desgosto das famílias. Após o incidente, porém,  entenderam o recado do Senhor e voltaram imediatamente suas faces para o Criador, pedindo perdão pelo tempo que estiveram afastados e agradecendo a oportunidade.

Com o passar dos anos, os relatos amedrontadores de almas pecadoras em danação eterna circulando pela cidade morta e até mesmo a própria proximidade com o centro do pecado acabou afastando toda a vizinhança do local. Anita e Rafael bem que quiseram mudar-se também, mas a situação financeira não era boa e, como o valor do aluguel na área diminuíra drasticamente, a opção foi continuar ali para reerguer a conta bancária.

Dez anos após a catástrofe, Fábio chegava agora à idade em que homens tendem a por à prova suas masculinidades. A época em que se distingue no grupo de amigos quem são os machos-alfa. E a verdade era que Fábio não tinha o que era preciso para ser o líder do bando. A timidez e os quilinhos a mais, na realidade, tornavam-no alvo de piadas.

Em um esforço para fazer seu filho enturmar-se melhor, Anita propôs que Fábio chamasse alguns amigos para dormir em casa. Após uma recusa inicial e um grande diálogo, o garoto aceitou.

Logicamente, a maior atração daquele local era a proximidade com o famoso muro. Assim que os três garotos convidados chegaram, logo se lançaram à janela ali do décimo andar para observar as ruínas da cidade. Passava um pouco das 6 da tarde e, com o pôr-do-sol, as sombras começavam a se desenhar na paisagem, formando amedrontadoras figuras. Cláudio, o verdadeiro líder do grupo, trouxera até mesmo um binóculo, com o qual varria o cenário em busca de possíveis avistamentos dos tão comentados “fantasmas de São Paulo”.

– Caraca! Eu acho que vi! – disse o garoto, com os olhos colados às lentes.

– O quê?! – exclamaram os outros três em uníssono.

– Calma, deixa eu achar de novo…

Na verdade, Cláudio tentava ganhar tempo para inventar o que ia dizer aos garotos. O mais importante não era realmente ser destemido, mas parecer.

– Nossa, é um cara arrastando um machado com uma mão e na outra… Caraca! É a cabeça dele! A cabeça tá cortada! Ele tá segurando com uma das mãos!

– Deixa eu ver! – pediu Arthur, tentando pegar o binóculo da mão de Cláudio.

– Espera! Deixa eu ver mais!

– Eu quero ver também! – gritou Caio.

Fábio manteve-se quieto. Na realidade, não estava muito afim de ver aquelas visões. Sua mãe lhe ensinara desde cedo que com aquela obra de Deus não se devia brincar.

Com o ruído das crianças, Anita foi atraída para o quarto e pegou a criançada brincando com o binóculo. Seu pavor foi tão grande que a mulher, normalmente calma e sensata, voou para cima de Cláudio e arrancou o binóculo dele. Após dar o maior sermão nos quatro sobre o respeito a Deus, confiscou o binóculo e disse que só devolveria a Cláudio no dia seguinte, quando ele fosse embora.

Mais tarde, quando Anita forçou-os a dormir, colocando todos no quarto e apagando a luz, Cláudio começou a exercer seu poder de persuasão com Fábio.

– Ei, gordinho. Vamos lá perto do muro.

– São 10 da noite, já.

– E daí? Tá com medinho, é? Faz tudo que a mamãe quer?

– Claro que não. O porteiro não vai abrir a porta pra gente.

– Mas seus pais tem a chave. A gente distrai ele e abre a porta… Que foi? Tá com muito medo pra ir?

Mesmo sabendo que o que fazia era errado, Fábio cedeu aos sussurros da serpente e roubou a chave dos pais.

Ao passar pela portaria, perceberam que o porteiro estava em sono profundo e, sorrateiramente, alcançaram a rua. Caminharam pelos dois quarteirões vazios, que mais pareciam uma cidade abandonada, já que poucos gostavam de passar por ali, e chegaram ao muro.

Os garotos ficaram em silêncio, com as costas apoiadas no muro e os olhos fechados, escutando os ruídos da cidade. Em seus íntimos, embora esforçassem-se ao máximo para não demonstrar, estavam morrendo de medo. A prova era de resistência, ver quem conseguia ficar ali por mais tempo. Os menores estalidos ouvidos do outro lado do muro, já faziam todos pularem de susto. Os corações batiam tão forte que pareciam querer sair pela boca.

De olhos fechados, Fábio concentrava-se na tarefa, tentando frear o ímpeto de sair correndo de volta para casa, o que lhe renderia a fama de covarde. Subitamente, porém, o garoto foi jogado no chão pelos colegas. Tirando de dentro das camisetas algumas cordas, os três prenderam mãos e pés do menino e amarraram-no a um poste ali ao lado. Após roubar a chave da casa, voltaram correndo e rindo, deixando Fábio imobilizado junto ao muro da cidade que Deus destruiu.

No dia seguinte, resolveram acordar bem cedo para recuperar o garoto antes que a mãe desse por sua falta. Logo aos primeiros raios de sol, retornaram ao local, mas para a surpresa dos três, Fábio não estava mais lá, nem mesmo as cordas que o prendiam.

Anita e Rafael entraram em desespero ao descobrir o que aconteceu e chamaram a polícia, que iniciou uma busca pelo garoto, mas não conseguiu nenhum resultado. Três dias depois, circundando o muro com o carro, Rafael encontrou Fábio caído e inconsciente no chão, com o rosto todo machucado. O garoto estava vivo, mas muito fraco. Foi levado ao hospital e, mesmo acordado, não dizia palavra. Parecia em um estado de transe.

Só foi dizer algo dois dias depois, ao pedir por um copo d’água. Perguntado sobre o que acontecera naquela noite, Fábio dizia que a última coisa que se recordava era do episódio do binóculo. Ao enfrentar uma situação traumatizadora, as pessoas às vezes as esquecem, como um mecanismo de defesa. Rafael estava determinado a descobrir o que acontecera e cogitou levar o garoto a um psicólogo, mas Anita desaconselhou-o, pois Fábio estava bem. Algumas coisas, talvez sejam melhores mesmo se esquecidas. Fato era que nem Fábio, muito menos Cláudio, Arthur e Caio ousaram brincar com a cidade que Deus destruiu novamente.

Anúncios

Uma resposta

  1. Geh

    Amedrontada!
    Mais uma vez provando excelência! Parabéns!! =)

    21 de julho de 2011 às 22:55

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s